segunda-feira, 19 de março de 2012

Me Desculpem, Fui Assaltado!

Eu estava no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2007, quando me roubaram o celular. Pudera, eu o coloquei no bolso e entrei com as mãos para cima no bloco de carnaval de Ipanema. Não deu cinco minutos e o aparelho já era.

Estava hospedado na casa de amigos e me passei por “vacilão” ao contar a desagradável notícia. Liguei (de um orelhão) a um amigo e ao contar sobre o ocorrido, ele me repreendeu: “Pô, deu mole, heim?”. Depois contei o infeliz episódio a uma amiga e tomei outro puxão de orelha: “Ah, mas aí você PEDIU para ser assaltado”. Chegando a Goiânia, várias pessoas me disseram que me ligaram, sem sucesso. Quando eu explicava o ocorrido, geralmente escutava, seguido de risadas: “Pô, ‘manezou’, heim?”, “Seu roceiro”.

Foi aí que resolvi tornar público meus sinceros pedidos de desculpas por ter sido assaltado. “Me desculpe, pessoal, eu não tinha a intenção. Prometo tomar mais cuidado da próxima vez”!

Realmente, eu “manezei”, afinal, a polícia do Rio já havia avisado para não levar celulares, carteiras, relógios, máquinas fotográficas, etc. Alertaram para que ninguém fosse às ruas portando objetos de valor por ser um atrativo aos trombadinhas. A polícia chegou até a pedir encarecidamente: “Por favor, nos ajudem!”. Eu devia ter ajudado, mas acabei desobedecendo e dancei... ou melhor, sambei.

No dia seguinte, um telejornal apresentou a reportagem de um delegado mostrando onde as mulheres deveriam colocar suas bolsas ao adentrar o carro. No final, o apresentador concluiu todo pomposo, como se tivesse prestado um bom serviço de utilidade pública: “Acabamos de apresentar como as mulheres devem fazer para evitar assaltos em seus veículos”. De supetão, a apresentadora ao lado dele, creio que quebrando o protocolo, emendou: “Parece que a responsabilidade sempre sobra para o cidadão”.

Após a reportagem, fica a sensação de que se um ladrão roubar a bolsa de uma mulher no carro, o problema será dela. A vítima é a culpada no cartório, pois não tomou as devidas providências. É como se imperasse aquela velha justificativa: “Aquela menina foi estuprada, mas pudera, saiu de mini-saia e top, a culpa é dela. Ela PEDIU isso.”

Estou com medo de andar nas ruas, pois do jeito que a coisa vai, se eu não tomar cuidado, da próxima vez que eu for assaltado posso acabar sentado no banco de réus.

Viva a Sociedade Socialista?

Em fevereiro de 2001, houve a Bienal de Arte e Cultura da Une, no Rio de Janeiro. Estudantes de todos os lugares do país estavam hospedados no mesmo alojamento, o que possibilitou um excelente intercâmbio e animadas festas. "Sou estudante em movimento", era o lema nas camisetas.

Na abertura da bienal, um fato inusitado: bandeira azul da Une de um lado, bandeira vermelha do outro. Parecia uma guerra civil. A bandeira azul defendia o governador do Rio, já a bandeira vermelha era contra. Como eu estava do lado vermelho, fiquei ali pulando e agitando também como se eu estivesse numa torcida organizada.

Quando Anthony Garotinho, então governador do Rio, subiu ao palco, me sentei para ouvir o discurso, mas foi impossível, pois a galera vermelha inundou o ambiente com vaias. Enquanto ele falava, uma garota, ao meu lado esquerdo, chorava de revolta. Olhei para outro lado e vi um dos líderes do manifesto explicando para colegas meus, que estavam tão alheios quanto eu, os motivos do protesto. Em menos de 2 minutos, lá estavam meus colegas agregados à ala vermelha, mostrando dedos para a ala azul. Minutos depois, rolou briga e pancadaria, fechando a abertura.

Nos dias seguintes, durante as festas nos alojamentos, a galera cantava exaltada: "Viva, viva a sociedade socialista". Aquilo tinha um ar de nostalgia. Eu me sentia como se estivesse vivendo na época da ditadura, marchando nas ruas, caminhando e cantando e seguindo a canção. Entretanto, o convívio diário com aqueles que se diziam socialistas me mostrou algumas incoerências entre discurso e prática.

Quando o ônibus que levaria os estudantes a uma visita na escola de samba da Mangueira chegou ao alojamento, um rapaz com uma boina à la Che Guevara furou a fila à cotoveladas e, sorrindo, se auto-proclamou esperto. A mesma menina que chorava de revolta na abertura entrava duas vezes na fila do café da manhã, sem ao menos se preocupar se sobraria para outros camaradas. Numa lanchonete, um sujeito que entoava canções de manifesto socialista entrou na minha frente, agarrou o sanduíche que eu aguardara por 20 minutos. Como um cão raivoso, rosnou para mim e por pouco não apanhei. No vestiário, as pessoas colocavam roupas e tênis sujos numa bancada e as limpas em outra. Não havia regras escritas na porta, normas penduradas em quadros de aviso, nada disso, era apenas uma questão de higiene. No entanto, isso não parecia perceptível a um rapaz, que não se importava em misturar as coisas. Mesmo sendo alertado por um colega sobre qual era o procedimento, ainda assim ele continuava se achando no direito de fazer como bem entendia, sem respeitar o bom senso comum.

Em todos os exemplos acima, os rapazes tinham barba e cabelos compridos. Parecia que o requisito para se fazer a revolução começava com o visual estereotipado. Em seguida, um discurso sócio-político engajado.

Ao final da viagem, fiquei me indagando que “estudante em movimento” seria este? Pessoas que clamavam por direitos, sociedade mais justa e igualitária, mas nas simples e pequenas ações do dia-a-dia não demonstravam solidariedade, respeito e educação para com o próximo.