segunda-feira, 19 de março de 2012

Viva a Sociedade Socialista?

Em fevereiro de 2001, houve a Bienal de Arte e Cultura da Une, no Rio de Janeiro. Estudantes de todos os lugares do país estavam hospedados no mesmo alojamento, o que possibilitou um excelente intercâmbio e animadas festas. "Sou estudante em movimento", era o lema nas camisetas.

Na abertura da bienal, um fato inusitado: bandeira azul da Une de um lado, bandeira vermelha do outro. Parecia uma guerra civil. A bandeira azul defendia o governador do Rio, já a bandeira vermelha era contra. Como eu estava do lado vermelho, fiquei ali pulando e agitando também como se eu estivesse numa torcida organizada.

Quando Anthony Garotinho, então governador do Rio, subiu ao palco, me sentei para ouvir o discurso, mas foi impossível, pois a galera vermelha inundou o ambiente com vaias. Enquanto ele falava, uma garota, ao meu lado esquerdo, chorava de revolta. Olhei para outro lado e vi um dos líderes do manifesto explicando para colegas meus, que estavam tão alheios quanto eu, os motivos do protesto. Em menos de 2 minutos, lá estavam meus colegas agregados à ala vermelha, mostrando dedos para a ala azul. Minutos depois, rolou briga e pancadaria, fechando a abertura.

Nos dias seguintes, durante as festas nos alojamentos, a galera cantava exaltada: "Viva, viva a sociedade socialista". Aquilo tinha um ar de nostalgia. Eu me sentia como se estivesse vivendo na época da ditadura, marchando nas ruas, caminhando e cantando e seguindo a canção. Entretanto, o convívio diário com aqueles que se diziam socialistas me mostrou algumas incoerências entre discurso e prática.

Quando o ônibus que levaria os estudantes a uma visita na escola de samba da Mangueira chegou ao alojamento, um rapaz com uma boina à la Che Guevara furou a fila à cotoveladas e, sorrindo, se auto-proclamou esperto. A mesma menina que chorava de revolta na abertura entrava duas vezes na fila do café da manhã, sem ao menos se preocupar se sobraria para outros camaradas. Numa lanchonete, um sujeito que entoava canções de manifesto socialista entrou na minha frente, agarrou o sanduíche que eu aguardara por 20 minutos. Como um cão raivoso, rosnou para mim e por pouco não apanhei. No vestiário, as pessoas colocavam roupas e tênis sujos numa bancada e as limpas em outra. Não havia regras escritas na porta, normas penduradas em quadros de aviso, nada disso, era apenas uma questão de higiene. No entanto, isso não parecia perceptível a um rapaz, que não se importava em misturar as coisas. Mesmo sendo alertado por um colega sobre qual era o procedimento, ainda assim ele continuava se achando no direito de fazer como bem entendia, sem respeitar o bom senso comum.

Em todos os exemplos acima, os rapazes tinham barba e cabelos compridos. Parecia que o requisito para se fazer a revolução começava com o visual estereotipado. Em seguida, um discurso sócio-político engajado.

Ao final da viagem, fiquei me indagando que “estudante em movimento” seria este? Pessoas que clamavam por direitos, sociedade mais justa e igualitária, mas nas simples e pequenas ações do dia-a-dia não demonstravam solidariedade, respeito e educação para com o próximo.

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